#Entrevista: Franz Trujillo, coordenador do SAFCI (Bolívia)

11/04/2018

Implementado a partir de 2011, o Programa Comunitário e Intercultural de Saúde da Família revolucionou a política de saúde na Bolívia, com foco especial na gestão participativa e na articulação entre o pessoal de saúde e os médicos tradicionais dos povos nativos. Seu coordenador, Dr. Franz Trujillo, fala sobre o impacto do programa e a importância de fortalecer os recursos humanos para abordar o princípio da interculturalidade.

Desde 2006, a Bolívia vem implementa mudanças importantes em sua política de saúde, culminando na criação do SAFCI. Quais seriam suas principais linhas de ação e que impacto sobre a saúde do povo boliviano poderia ser destacado?

A transformação de um sistema de saúde totalmente assistencial foi necessária. A implementação da política de saúde do Estado Plurinacional (SAFCI) segue os princípios da APS e tem como pilares fundamentais: Integralidade, intersetorialidade, Interculturalidade e Participação da Comunidade.

O SAFCI tem dois componentes: Atenção integral e intercultural baseada em ações para promover saúde, prevenção e tratamento de doenças de maneira relevante, oportuna e eficiente, através da aceitação, respeito e valorização de sentimentos, saberes, conhecimento e práticas saudáveis ​​da população no âmbito da interculturalidade.

Incorpora a Promoção da Saúde como sua principal estratégia, com ênfase na abordagem preventiva, por meio de visitas às famílias e com as ações intersetoriais dos Determinantes Sociais da Saúde, desde o nível local até os mais altos níveis de decisão.

O outro componente importante é a Gestão Participativa e o controle social, reconhecido na Constituição Política do Estado, que fortalece a estrutura social em saúde que permite a interação e a tomada de decisão conjunta e coordenada.

Como exemplo de impacto, através do Programa Minha Saúde, a taxa de mortalidade infantil foi reduzida de 54 para 24 por 1.000 nascidos vivos; a taxa de mortalidade neonatal de 27 para 15.

Nove em cada dez mulheres grávidas são tratadas nos serviços de saúde durante o parto pelo pessoal de saúde. A redução acelerada da desnutrição crônica em crianças menores de dois anos de 25,1 para 15,2%. Ações que garantem o acesso aos cuidados de saúde.

A participação social é um dos pilares do SAFCI. Como isso se reflete na prática do programa? Que avanços você destacaria nesse contexto?

A participação social é um dos pilares fundamentais da Política da SAFCI. Uma Estrutura Social em Saúde foi formada, a partir do nível local de cada comunidade, com representação em cada Estabelecimento de Saúde, Município e em nível regional. São participantes ativos nos diferentes encontros de análise em saúde, no planejamento de ações, na tomada de decisões e em ações conjuntas que apoiem a modificação dos determinantes sociais da saúde. No âmbito da intersetorialidade.

Esta estrutura social é devidamente reconhecida a partir de suas bases, de acordo com seus usos e costumes que apoiam as atividades de gestão de saúde e vigilância epidemiológica.

Um fator fundamental em qualquer política de saúde é o fortalecimento dos recursos humanos. Como é realizado o trabalho de sensibilizar a equipe médica para práticas integrativas e interculturais e quais estratégias são usadas para reter esses profissionais?

Em nosso país, no ano de 2007, uma especialidade médica foi criada na área clínica social, denominada Comunidade da Família e Saúde Intercultural. Esta especialidade está incluída no Sistema Nacional de Residência Médica, cujo treinamento inclui todo um processo de treinamento e conscientização, tendo como eixos a interculturalidade e a descolonização. A ideia é criar Recursos Humanos em Saúde adequados, com uma visão holística, que atualmente dirigem o Programa MINHA SAÚDE, atingindo um total de 492 Médicos Especialistas da SAFCI. Até o momento, o Ministério da Saúde incorporou esses novos especialistas em sua estrutura, concedendo os itens correspondentes e designando suas áreas de atuação.

A partir de 2006, cerca de 5 mil clínicos gerais com experiência na APS foram treinados na República de Cuba e na Venezuela. Eles serão gradualmente incorporados ao sistema de saúde para trabalhar em conjunto com os especialistas da SAFCI. Esses profissionais recebem uma atualização sobre a política do SAFCI.

São os especialistas SAFCI que têm entre suas funções tornam-se professores tutores nos chamados “Curso de Educação Continuada em Política SAFCI” destinado a profissionais e técnicos de saúde, tanto do programa Minha Saúde, como aqueles que já estão no sistema de saúde convencional, através do qual, é socializado e toma ações para implementar a Política SAFCI.

Como o setor da saúde e, especificamente, o SAFCI podem ajudar a alcançar uma vida bem planejada no Plano Setorial para o Desenvolvimento Integral para Viver Bem – PSDI?

A Política da SAFCI aborda dois eixos principais do Plano Setorial. Promoção da Saúde, com base no enfoque e transformação dos Determinantes Sociais da Saúde que, junto à Educação para a Vida, indivíduos, famílias e comunidades tomam consciência de todos aqueles fatores que prejudicam sua Saúde. Trata-se de uma análise que ocorre em todos os níveis de gestão e que gera mudanças comportamentais nas famílias com base no diálogo e no respeito mútuo. Isso vale também para o acesso universal à saúde, em que barreiras geográficas, econômicas e culturais são quebradas, priorizando recursos humanos e melhorando a capacidade de resolução de estabelecimentos em locais cujas famílias não têm a possibilidade de acessar um serviço de saúde, promovendo atendimento gratuito e buscando um relacionamento interpessoal e intercultural.

Por fim, um dos pilares da UNASUL e do Conselho de Saúde do bloco é a promoção de políticas de saúde intercultural, que é uma marca em nossa região. Como você acha que o bloco pode contribuir para promover, como região, políticas que tenham a interculturalidade como base?

O apoio ao fortalecimento dos Recursos Humanos é muito importante para poder abordar adequadamente o princípio da interculturalidade. Estou falando de criar espaços para trocar essas experiências com os principais atores que têm a ver com RH; na formação acadêmica das carreiras médicas e com o pessoal de saúde dos ministérios para que, por meio de políticas, não apenas em saúde, o tema da interculturalidade seja incorporado.

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