Jaime Breilh: “Os determinantes sociais produzem conhecimento sobre relações que expõem a profunda desigualdade que existe na saúde”

22/11/2018 - Daniel Salman

 

 

Em visita ao Brasil, o renomado médico e pesquisador equatoriano participou do Seminário de Celebração dos 30 anos do SUS. Abaixo, algumas de suas reflexões em um diálogo com Saúde ao Sul, a revista digital do ISAGS.

Reitor da Universidade Andina Simón Bolívar, médico formado pela Universidade Central do Equador, Master of Science em Medicina Social da Universidade Autônoma Metropolitana do México, pesquisador e um dos fundadores do movimento latino-americano de saúde coletiva. Os títulos do curriculum vitae de Jaime Breilh são muitos e ultrapassam o espaço reservado para esta entrevista. É que Jaime é a soma de todos esses títulos e muito mais. E isso é percebido na face de toda a audiência que espera ansiosamente a sua palestra na “Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV)” da Fiocruz, no Rio de Janeiro. No auditório há autoridades, acadêmicos, jornalistas. Todo mundo conhece o Jaime. Mas naqueles que mais se percebe o entusiasmo é entre os alunos da escola, da “Poli”, como todos carinhosamente a chamam. Não é pra menos, esse nome  que aparece em muitos livros e fotocópias, esse homem alto que aparece em vídeos de conferências internacionais, se fez um lugar em sua agenda lotada para prestigiar  um seminário que comemora três grandes eventos: o 30º aniversário do SUS , os 33 anos da EPSJV e os 10 anos da revista Poli.

O tema da mesa redonda foi: “Emergências de saúde, indicadores de saúde e doenças reemergentes: os determinantes sociais da saúde 30 anos depois”. Da mesma também participaram Eduardo Hage, especialista em Vigilância em Saúde do Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (ISAGS), Rivaldo Venâncio, coordenador dos Laboratórios de Vigilância e Referência em Saúde da Fiocruz e a mediação de Alexandre Pessoa, da EPSJV / Fiocruz.

Depois de dar sua palestra e abordar todas as preocupações do público, Jaime reservou tempo para responder a algumas das perguntas da Saúde ao Sul, a revista digital do ISAGS.

Devido ao contexto em que nos encontramos (30 anos do SUS, Sistema Universal de Saúde), que lições podem ser usadas para fortalecer os sistemas de saúde da região sul-americana?

Existem duas realidades diferentes na América do Sul, mas elas podem historicamente acabar sendo complementares. Por um lado, há a via do SUS, que é a via brasileira e que tem dado contribuições muito importantes e cujos princípios filosóficos, equidade e acesso universal pleno, são de grande riqueza. Por outro lado, há uma segunda maneira válida para países que começaram em um caminho diferente, que é o da Costa Rica. Porque a Costa Rica tem um dos sistemas de saúde mais perfeitos da América Latina, com base no acesso ao Seguro Público Universal. É verdadeiramente universal, porque pelo simples fato de estar em solo costarriquenho você já está coberto, seja ou não daquele país.

Por outro lado, nem sempre a alternativa é ir para o SUS, se há países que avançaram nessa realidade de seguro universal, devemos ir em direção à universalização do seguro público, ir no sentido contrário seria construir a equidade para baixo. Perderíamos o que temos e seríamos iguais àqueles que não têm nada. No caso do Equador ou países com essa realidade, não seria ideal descartar o já construído para ir em direção a um modelo como o SUS. O que devemos fazer é ir em direção à universalização do seguro público.

Porém, é muito necessário que o Brasil, que já possui o SUS, defenda esse modelo. Seria um desastre histórico desmantelar isso e privatizar e dissolver acreditando em ofertas mágicas que sabemos que não virão.

Quais são os novos desafios levando em conta o contexto de desigualdade em saúde?

Eu serei muito conciso nisso. Cada país é um mundo e tem sua própria realidade, a qual muda o tempo todo. O importante é colocar os princípios à frente e alcançar o acesso universal à saúde e à equidade.

Do ponto de vista dos determinantes sociais, que tipo de políticas públicas para todos e todas em saúde devem ser propostas para contribuir com a região?

Os determinantes sociais são a interpelação mais profunda que podem ter aqueles modelos que a partir do poder foram defendidos como aqueles que “têm que ter nossa sociedade”. Conceitos como esses produzem conhecimento sobre relacionamentos que expõem profunda desigualdade e nos fazem ver de onde vem o tsunami de problemas de saúde.

Além disso, nos dá uma ferramenta para fazer um repensar filosófico da sociedade em que vivemos. O patogênico e o insalubre que pode ser.

Finalmente, nos dá elementos para reconstituir os níveis de avaliação ética das práticas em todos os campos. Eu acho que é um discurso integral que necessariamente nos leva à interculturalidade do conhecimento. Não é um pensamento acadêmico, mas um que respeita o conhecimento popular e que nos leva à interculturalidade também no sentido de que, por exemplo, não pode haver construção de saúde em territórios onde exista uma história indígena, sem povos indígenas. Ou dos bairros das cidades sem seus habitantes. A construção de conhecimento, práticas, deve ser democratizada. Eu acredito que os determinantes possuem todas essas ferramentas.

Aproveitando que você mencionou a interculturalidade do conhecimento, gostaria de refletir sobre a saúde intercultural?

Parece bom deixar claro que é um conceito que muitas vezes parece distorcido, quando a burocratização do pensamento é evidente. Por exemplo, colocar parteiras burocratizadas não é a solução, não é o caminho a seguir. Deve haver uma interculturalidade real e respeitosa. No caso do Equador, os povos indígenas da Serra Norte têm posições muito claras, filosóficas e práticas a esse respeito. Para comunidades como essas, devemos dar a elas uma hierarquia real no sistema de saúde. É essencial dar-lhes reconhecimento político e institucional, sem submetê-los a um molde alopático ocidental típico, clássico e positivista, mas respeitando suas dinâmicas e tornando-as uma prática real.

 

Daniel Salman

Analista de Informação e Comunicação do ISAGS -UNASUR

danielsalman@isags-unasur.org

 

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