Jorge Bermúdez: “O poder por trás da indústria farmacêutica só é superado pela indústria da guerra”

18/01/2019

Se a saúde pública e os medicamentos estiverem envolvidos, nunca há falta de desculpas para conversar com especialistas do setor. Muito mais se um desses referentes é Jorge Bermúdez, doutor em Saúde Pública, pesquisador da ENSP / Fiocruz e membro do Painel de Alto Nível de Acesso a Medicamentos das Nações Unidas.

O diálogo com a Saúde ao Sul, revista digital do ISAGS, ocorreu no âmbito do seminário comemorativo dos 20 anos de incorporação do Núcleo de Atenção Farmacêutica (NAF) da Fiocruz, como centro colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde, em São Paulo. Escola Nacional de Saúde Pública do Rio de Janeiro. A entrevista foi realizada por Isabel Iturria Caamaño, especialista em Determinação Social da Saúde do ISAGS, que também esteve presente no seminário. Um dos tópicos da reunião foi a lista de medicamentos essenciais e justamente por esse motivo, foi a questão que abriu essa conversa.

Qual é a importância de trabalhar em torno de uma lista de medicamentos essenciais?

Sabemos que essa lista é mais que um papel. Tem a ver com um modo acordado de adquirir, prescrever e concordar com medicamentos em busca de benefícios para as pessoas. É, acima de tudo, um instrumento que serve para fortalecer o sistema de saúde, pois a população precisa ter acesso a medicamentos. Ao contrário de outros bens de consumo, se você precisar de uma medicação hoje, você tem que tomar hoje. Não há outra possibilidade, daí sua importância.

Eu acredito que medicamentos essenciais devem ser isentos de patentes em todo o mundo. Lutamos para que algum dia tenhamos uma licença compulsória automática, que deve ser feita em conjunto com a OMC, para que essas drogas tenham competência genérica e não sejam um mero monopólio. O preço que a indústria aplica, é muitas vezes um crime e não tem nada a ver com os custos reais, os custos reais. Existem drogas com preços exorbitantes. Isso é inaceitável.

Falando de ética e da indústria farmacêutica, como você pode trabalhar para equilibrar o excesso de oferta de medicamentos com base nas necessidades reais das pessoas?

A diferença entre oferta e demanda é fenomenal. A demanda é o que as pessoas precisam. A oferta é o que a indústria precisa para aproveitar ao máximo os lucros.

Temos que ter preços de referência, preços que permitam aos governos negociar com a indústria. Os preços de referência não podem ser apenas um adorno, eles têm que ser um componente para baixar os preços. O grande desafio global é como incorporar bilhões de pessoas que não têm acesso a medicamentos. É uma batalha hercúlea, é uma batalha muito forte contra uma das indústrias mais poderosas do mundo. O poder por trás da indústria farmacêutica perde apenas para a indústria da guerra.

Como podemos melhorar a formação dos médicos que prescrevem para minimizar o impacto das estratégias de publicidade na indústria farmacêutica?

Essa indústria tem uma estratégia de propaganda e marketing voltada para médicos, outra para profissionais farmacêuticos e outra para a população. Temos que lutar, acima de tudo, a estratégia destinada aos médicos. São eles que têm que prescrever racionalmente de acordo com os benefícios, disponibilidade no mercado e preço. Existem protocolos que os países têm e que os profissionais de saúde devem seguir. Isso quer dizer que o conhecimento e a educação adequada para isso é primordial.

Como podemos combater a pressão da indústria farmacêutica sobre aqueles que tomam decisões sobre medicamentos?

Ali são grêmios quem devem agir. Não pode ser que os médicos sejam convidados para eventos internacionais em hotéis de luxo, resorts com pagamento integral e conferências que os estimulem a prescrever certos medicamentos – acreditando que estão prescrevendo um produto de quarta ou quinta geração, não necessariamente melhor, e que além disso, sempre será mais caro. Devemos proibir visitantes médicos, brindes, eventos promovidos pela indústria. Os eventos em que os médicos participam devem ser apenas eventos organizados por instituições científicas.

Vamos falar sobre terapia racional e o impacto de toda tecnologia aplicada à saúde (tecnologia cada vez mais cara e com efeitos muitas vezes duvidosos). Como as lições aprendidas com medicamentos poderiam ser estendidas a outras tecnologias?

Em vez de falar sobre terapia racional, devemos falar sobre tecnologia de saúde. Porque não é apenas o medicamento, é também o diagnóstico. Para prescrever uma medicação, precisamos ter um diagnóstico. Muitas vezes, métodos mais caros são usados ​​para chegar a esse diagnóstico, do que os métodos que tradicionalmente poderiam ser usados. Os métodos e tratamentos de diagnóstico devem ser baseados em evidências. Caso contrário, teremos tratamentos muito mais caros, não apenas para pessoas, mas para o sistema.

Que possibilidades tem a América do Sul como bloco para fortalecer sua produção de medicamentos e a negociação conjunta para a compra deles?

Vejo com grande pesar o que está acontecendo na região, com a posição de países que não querem ter essa integração. Um bloco de doze países como o nosso seria muito mais forte do que muitas das regiões. Uma negociação conjunta com produtores locais e estrangeiros? Claro que teria benefícios. Além disso, isso tem a ver com a ideia de populações relegadas. Não se fala mais de doenças relegadas, mas de populações relegadas: refugiados, imigrantes, emigrantes. Essas populações devem ser atendidas a partir da integralidade. O sistema de saúde deve ser fortalecido para atender as pessoas em todas as suas necessidades.

Alguma outra coisa que você deseja adicionar?

Eu gostaria de dizer que devemos cuidar do que diz a Constituição brasileira, cuja estratégia também foi modelo adotado em outros países: “A saúde é um direito de todos e um dever do Estado”.

Nestes momentos estamos nos movendo da esperança que havia para a resistência que deve haver. Há muitas conquistas que temos que tentar preservar, protegidas pela nossa Constituição. Temos que nos unir com outros países, com países que trabalham com o direito à saúde, como um direito fundamental dentro dos direitos humanos.

Temos que avançar na integração regional, nos unir e trabalhar juntos. Tanto o ISAGS como a UNASUL desempenharam um papel fundamental no trabalho conjunto de nossos países nestes anos.

Entrevista: Isabel Iturria Caamaño, Especialista en Determinación Social de la Salud (isabeliturria@isags-unasur.org)

Edição: Daniel Salman, Analista de Comunicación (danielsalman@isags-unasur.org)

Design: Raquel Cerqueira, Assistente (raquelcerqueira@isags-unasur.org)

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