O papel da vacinação na melhoria dos indicadores de saúde

06/04/2018 - Eduardo Hage

Uma das maiores conquistas na Saúde Pública mundial tem sido a redução da mortalidade infantil em menores de cinco anos. Nas Américas, por exemplo, foi alcançada uma redução para este indicador de 42,5 mortes/1.000 nascidos vivos (nv) para 14,7 mortes por 1.000nv, entre 1990 e 2016 (OMS, 2017). Nos países da América do Sul esta redução também foi muito relevante, alcançando 61% neste período. No entanto, ainda existe uma heterogeneidade relevante entre os países sul-americanos com uma faixa entre 8,3/1.000nv a 37/1.000nv entre eles.

Muitos fatores estão envolvidos nessa conquista da região, e incluem elementos relativos à melhoria das condições de vida, incluindo moradia (como por exemplo os indicadores de saneamento, que têm um impacto na mortalidade por diarreia), diminuição da desnutrição, aumento da entação, entre outros fatores sociais, econômicos e culturais.

No entanto, a melhoria do acesso a algumas tecnologias em saúde – como as vacinas – também representam um impacto na redução da mortalidade do grupo etário de menores de cinco anos, que constitui o público alvo para a maioria das vacinas incluídas nos Programas Nacionais de Imunização da região das Américas. A recente introdução de novas vacinas em muitos países sul-americanos, como as vacinas contra infecções por rotavírus, pneumococo e meningocócico C, ampliou a oferta de imunobiológicos para as crianças e também seus efeitos na redução de doenças graves causadas por estes agentes.

Quando olhamos as causas de mortes deste grupo etário, as doenças imunopreveníveis não representam mais as principais origens, como acontecia em um passado distante. Entretanto, mesmo com grandes conquistas alcançadas na redução destes problemas, como a eliminação da poliomielite e a redução da maioria de outros males deste grupo, continuam acontecendo surtos e alguns deles apresentam, hoje, níveis de incidência mais altos do que em décadas passadas. Por exemplo, os surtos de sarampo no Brasil e na Venezuela nos últimos anos, além do contínuo aumento da incidência de coqueluche. Estes processos também aconteceram nos grupos etários maiores, nos quais a ocorrência de algumas doenças (como por exemplo a meningite C em adolescentes) se manteve ou aumentou. E também continuam surgindo surtos de grande escala, como a febre amarela no Brasil.

Para alcançar uma boa eficácia da vacinação na população é fundamental atingir coberturas altas e homogêneas no público alvo, o que constitui hoje um grande desafio para os programas nacionais de imunização.  Na região sul-americana, em 2015, as mais altas coberturas em crianças menores de um ano (para a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba, calculada para um ano de idade completo), foram informadas para as seguintes vacinas (considerando uma média de cobertura maior ou igual a 90%): BCG, pólio (3ª dose), Tríplice Bacteriana ou DTP (3ª dose), Tríplice viral (1ª dose) (OPS/OMS, 2017). No entanto, quando são examinadas as coberturas por país, é identificado um número relevante de países que não alcançaram estas coberturas para cada uma das vacinas referidas: Pólio (6/12), Tríplice Bacteriana ou DTP (5/12), Tríplice viral (3/12) e BCG, pólio (2/111). As vacinas que foram introduzidas mais recentemente apresentam coberturas mais baixas: rotavírus – 3 entre 9 países que introduziram a vacina e para os quais há dados disponíveis, alcançaram 90% de cobertura ou mais; anti-pneumocócica (3ª dose, conjugada) – 6 entre 11 países alcançaram esta cobertura.  Deve ser considerado também que a cobertura ideal é de 100% e para a maioria das vacinas a meta estabelecida é de 95%.

Um desafio ainda mais importante é o de garantir que as altas coberturas estejam distribuídas de forma homogênea em todo o território nacional, para que não sejam gerados “” de pessoas suscetíveis, que muitas vezes são os responsáveis pelo surgimento de surtos. Quando se analisa a porcentagem de municipalidades que alcançaram 95% ou mais de cobertura em menores de um ano para Tríplice Bacteriana ou DTP (3ª dose), somente um país da região supera o nível de 80% das municipalidades, enquanto 9 países possuem abaixo de 50% de municipalidades com níveis adequados de cobertura (OPS/OMS, 2017).

Muitos fatores estão relacionados ao alcance de coberturas vacinais2, os quais, muitas vezes, são diferentes entre eles e de acordo com cada imunobiológico analisado. Podemos, de forma resumida, identificar fatores relativos à adesão da população; acesso da população aos serviços de saúde; disponibilidade, custo e acesso às vacinas. A adesão da população, ainda que seja condicionada pela facilidade de acesso e disponibilidade, possui também outros fatores, como a percepção de que o benefício do uso da vacina supera o risco, em particular em algumas vacinas cujos efeitos adversos graves podem gerar mortes ou incapacidades, ainda que em níveis reduzidos.  É o caso da vacinação contra a febre amarela e a poliomielite, por exemplo. Por outro lado, fatores culturais (como a adesão às concepções de grupos contrários à vacinação) podem ter uma forte repercussão sobre a adesão da população a esta estratégia.

As dificuldades de acesso da população podem contribuir para a redução da cobertura, seja por problemas de distância em relação aos serviços, período de funcionamento destes serviços e a qualidade da atenção.

Outra dimensão de fatores se refere à relação da capacidade nacional de produção, aquisição (no que se refere ao preço), distribuição e armazenamento das vacinas nos serviços de saúde. Estas capacidades envolvem também os níveis locais (ou subnacionais), organismos multilaterais e, muitas vezes, não governamentais.

A identificação de quais fatores apresentam um papel mais preponderante para alcançar coberturas adequadas e a definição e implementação de estratégias para a resolução dos problemas identificados em cada país são fundamentais para aperfeiçoar os programas nacionais de imunização e ampliar as conquistas alcançadas com estes programas na melhoria das condições de vida das populações.

Ainda que a vacinação seja uma importante estratégia de prevenção que deve ser realizada e fortalecida todos os dias, existe um chamado mundial anualmente para que se reforce esta estratégia, conhecido como a Semana Mundial de Imunização que, este ano, vai acontecer em abril. Nas Américas, existe ainda a Semana de Vacinação nas Américas, que será realizada entre os dias 21 e 28 desse mês.

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Referências:
  1. Global Health Observatory data. Disponível em: http://www.who.int/gho/child_health/en/. Acessado em 08 de fevereiro de 2018.
  2. Organización Panamericana de la Salud/Organización Mundial de la Salud, Enfermedades Transmisibles y Análisis de Salud/Información y Análisis de Salud: Situación de Salud en las Américas: Indicadores Básicos 2016. Washington, D.C., Estados Unidos de América, 2016. Disponível em: http://iris.paho.org/xmlui/bitstream/handle/123456789/31288/IndicadoresBasicos2016-spa.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acessado em 9 de fevereiro de 2018.

 

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