O produto da mineração que não é ouro

20/05/2018 - Julia Dias

Uma das atividades econômicas mais antigas do continente, a mineração tem impacto sobre a saúde dos trabalhadores e da população em geral

Em 2015, o Brasil sofreu um dos mais graves desastres de mineração. A barragem de rejeitos rompeu na cidade Mariana, província de Minas Gerais, e vitimou faltamente 14 trabalhadores, cinco pessoas e um bebê que ainda estava por nascer, destruindo várias aldeias ao longo do caminho e todo o curso de um dos rios mais importantes país, o rio Doce. Após quase três anos da tragédia, os impactos sobre a saúde da população persistem.

A análise da poluição do rio, que abastece 12 cidades próximas, e o mar ainda não está bem medida, mas aponta para a presença de metais pesados ​​na água. Casos de contaminação da população por níquel e arsênio também foram relatados. Além disso, os transtornos mentais também são uma consequência muito presente: quase 30% dos afetados em Mariana sofrem de depressão, cinco vezes mais do que a média da população brasileira, e 32% sofrem de transtorno de ansiedade generalizada, três vezes mais do que o resto da população. Outros problemas incluem transtorno de estresse pós-traumático, principalmente em crianças, o risco de suicídio e transtornos relacionados ao uso de substâncias psicotrópicas, como álcool, tabaco, maconha, crack e cocaína.

Mariana, Brazil-Dezembro 2015. Vista de um distrito coberto de lama após o colapso da barreira da Samarco

Outro caso na América do Sul que ganhou atenção mundial e até se tornou um filme foi o dos 33 mineiros chilenos que ficaram 69 dias debaixo da terra depois de um acidente em uma mina de cobre. Os trabalhadores ficaram presos a quase 700 metros de profundidade, com temperaturas de 40ºC, alta umidade e quase sem comida ou água potável. No entanto, o destaque internacional não foi suficiente para que eles tivessem toda a atenção necessária para sua recuperação de saúde e financeira. Mais de oito anos após o acidente, apesar de seu resultado positivo, muitos sofrem de problemas de saúde, como a síndrome do pânico, além de problemas como a falta de emprego. Apenas 10 dos 33 mineiros chilenos tinham empregos permanentes em 2015.

Sonda para o resgate dps 33 mineiros chilenos

Os acidentes de mineração nem sempre chamam a atenção da imprensa, mas não são raros. No Brasil, a mineração é o quarto setor com maior número de acidentes de trabalho e o segundo em mortalidade, segundo dados da Fundacentro. As principais causas são vazamentos de gás, deslizamentos de terra, incêndios e explosões. Inclusive, foi um acidente na mineração, que vitimou fatalmente 78 trabalhadores após uma explosão em uma mina de carvão nos EUA em 1969, o que levou à criação pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) do Dia Mundial de Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado em 28 de abril de 2003.

Para reduzir o risco para os trabalhadores, existe uma Convenção da OIT sobre o Trabalho em Minas (Convenção 176). Apenas três países da região – Brasil, Peru e Uruguai – ratificaram seus termos. Embora tenha havido uma diminuição histórica no número de incidentes desde os anos 90, com a melhoria das regulamentações por parte dos governos e o uso pelas empresas de novas tecnologias de segurança para os trabalhadores e o meio ambiente, muito ainda precisa ser feito.

No Brasil, uma estimativa de 2011 mostra que o custo dos acidentes de trabalho da mineração para a seguridade social chega a 14 bilhões de reais por ano (cerca de 4 bilhões de dólares). No entanto, esses dados são subestimados, uma vez que não levam em conta os gastos com o sistema de saúde, tampouco os casos que envolvem trabalhadores informais ou terceirizados, que são a maioria no setor. Um estudo mostra que, de cada 10 trabalhadores mortos em acidentes no Brasil, 8 são terceirizados. No caso de Mariana, dos 14 mortos, 13 eram terceirizados.

Mesmo sem incidentes, a mineração é muitas vezes prejudicial à saúde dos trabalhadores e das comunidades próximas. Poeira, ruído, poluição da água, ar e solo são alguns dos problemas das áreas de mineração e das áreas onde os minerais são transportados e refinados. Entre as principais doenças que podem causar doenças respiratórias, doenças de pele, insegurança alimentar e gangrena. Entre os mineiros, também são comuns problemas na coluna vertebral, transtornos mentais, silicose, surdez e “doença do dedo branco”, que causa gangrena pelo uso de dispositivos de vibração. Muitas vezes, esses problemas levam à aposentadoria precoce por incapacidade.

“A silicose, por exemplo, é conhecida há 300 anos e há mais de 100 anos sabemos quais são as medidas de proteção coletiva para preveni-la. No entanto, as pessoas continuam a morrer”, diz Marta Freitas, que é especializada em engenharia de segurança e saúde trabalho, ex-diretora da Fundacentro Minas. Ela destaca um estudo que afirma que um trabalhador com a doença custa ao Estado cerca de R $ 200 mil reais (57 mil dólares). Mesmo assim, trata-se de um tratamento que ajuda muito pouco o trabalhador, porque a doença costuma estar em estágio avançado quando é diagnosticada.

A falta de água para a população próxima também é um grande problema apontado por Freitas. “A mineração é uma atividade que consome muita água, também elimina as mananciais e destrói os lençóis freáticos”, diz o pesquisador que aponta o racionamento de água presente em várias cidades de Minas Gerais como uma consequência disso.

As substâncias tóxicas provenientes das minas

Das dez substâncias químicas consideradas um problema de saúde pública pela OMS, sete estão presentes na atividade de mineração (ver box). O mercúrio, por exemplo, está presente na mineração de ouro, principalmente na mineração artesanal, muitas vezes informal ou ilegal.

Sua contaminação se dá pelo consumo de alimentos, principalmente peixes, e é cumulativa, sendo uma ameaça especialmente para o desenvolvimento do bebê no útero e nos primeiros anos de vida. Seus efeitos tóxicos são sentidos nos sistemas nervoso, digestivo e imunológico, e nos pulmões, rins, pele e olhos, entre outros. No continente existem rios com altas concentrações do metal, como o rio Inírida, na Colômbia, o rio Madre de Dios, no Peru, e os rios do estado do Amapá, no Brasil.


Dez produtos químicos que preocupam a saúde pública, segundo a OMS

  • Contaminação do ar
  • Arsênico
  • Amianto
  • Benzeno
  • Cádmio
  • Dioxinas e substâncias similares
  • Excesso ou quantidade inadequada de flúor
  • Mercúrio
  • Chumbo
  • Pesticidas altamente perigosos

Já existe um acordo internacional para reduzir e eliminar o uso de mercúrio, chamado Convenção de Minamata – em referência à cidade japonesa que sofreu um desastre devido à poluição. Sete países da América do Sul já ratificaram essa convenção, faltando ainda o Chile, a Colômbia, o Paraguai e a Venezuela. O Suriname não assinou o acordo.

Outro metal que pode estar presente na mineração de ouro é o arsênico. Estimativas recentes sugerem que pelo menos 4,5 milhões de pessoas na América Latina estão expostas a níveis de arsênio acima de 50 μg. Existem casos relatados na Argentina, Bolívia, Chile e Peru. A contaminação pela substância aumenta o risco de câncer de pulmão, bexiga e pele. Também pode causar inúmeras lesões cardiovasculares, neurológicas e cutâneas e doenças respiratórias. A exposição crônica ao arsênico também está associada a déficits nas funções cognitivas e motoras das crianças.

Impactos não estimados, dados subnotificados

O problema da subnotificação de casos de saúde e acidentes envolvendo mineração persiste em todos os países da América do Sul. Não só pelos problemas de informalidade e terceirização, mas também pela dificuldade de relacionar os impactos com a atividade. Os riscos não são considerados adequadamente nos estudos anteriores para a liberação de uma mina. Os pesquisadores do assunto defendem que o custo na saúde pública e no meio ambiente deve ser bem observados nos custos totais da atividade mineradora.

A mineração é muitas vezes localizada em regiões pobres, onde se torna a principal atividade econômica. Essas regiões normalmente se beneficiam das receitas de mineração, mas muitas vezes não há melhora nos indicadores sociais. Na Colômbia, por exemplo, os indicadores de saúde, como a mortalidade infantil, são mais altos nas regiões de mineração de carvão do que em outras cidades, embora a cobertura de saúde seja maior nas regiões de mineração.

Mineração vai embora, problemas permanecem

Após o término de um ciclo de mina, os riscos para as comunidades vizinhas ainda estão presentes. Os problemas de poluição das minas abandonadas estão presentes na mineração de carvão na Colômbia, por exemplo. As barragens de resíduos são outro problema que permanece e, sem a empresa responsável e o devido controle, o medo e a insegurança da população tende a ser maior.

Finalmente, há os impactos econômicos nas cidades. Muitas vezes as cidades de 2 mil habitantes chegam a 10 mil em um curto período devido à mineração. Quando a atividade se esgota, a pobreza, a violência, os problemas sociais e de saúde e os danos ambientais gerados pela atividade permanecem por muitos mais anos.

Julia Dias
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