PrEP: Um novo passo no combate ao HIV/AIDS

06/04/2018 - Mário Camelo

O Brasil é o primeiro país na América Latina a incorporar a PrEP ao seu sistema de saúde e agora compartilha a experiência com o Peru e o México

Se você perguntar a alguns dos seus amigos: “O que é a PrEP?”, certamente muitos não terão a menor ideia da resposta. Ainda que não seja muito conhecida pela população de uma maneira geral, a profilaxia pré-exposição ou PrEP, é uma estratégia cada vez mais investigada e utilizada como método complementar em todo o mundo aos já existentes para prevenir o contágio do HIV por via sexual. Desde 2010, os resultados de várias pesquisas vêm comprovando que o uso diário do comprimido comercializado com o nome de Truvada, que combina dois antirretrovirais, o tenofovir (TDF) e a emtricitabina (FTC), é altamente eficaz (próximo a 100%). Se tomado corretamente, o medicamento cria uma barreira no ciclo da multiplicação do vírus, impedindo assim a infecção do organismo.

A epidemia de AIDS é, hoje, uma das maiores preocupações globais. Dados do ONUSIDA mostram que, em 2016, existiam cerca de 36,7 milhões de pessoas vivendo com a doença no mundo, o que representa duas vezes a população do Chile e toda a população do Canadá. Diante de um cenário catastrófico como esse, a Organização Mundial da Saúde (OMS), reconhecendo o potencial da PrEP para enfrentar a epidemia, recomendou, desde 2012, o desenvolvimento de estudos para avaliar como esta estratégia de prevenção pode ser utilizada, considerando as especificidades da cultura e dos sistemas de saúde de cada país, fatores que variam amplamente.

O Brasil, uma das referências mundiais no tratamento do HIV/AIDS foi o primeiro país da América Latina a desenvolver um estudo sobre o tema, que começou em 2007, no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). A investigação chegou no surgimento do bem-sucedido projeto PrEP Brasil, iniciado em 2010. A pesquisa testou a utilização da substância nos chamados “grupos de risco”, ou as pessoas que, segundo as estatísticas do país, apresentam mais risco de contrair a doença: profissionais do sexo, homens que praticam sexo com homens sem preservativo, travestis e mulheres trans.

“Em 2010, quando iniciamos a pesquisa preliminar, já tínhamos o resultado: a intervenção com os antirretrovirais era eficaz. A pergunta agora era: ‘Será que a população brasileira vai aceitar usar isso? Vai ter boa adesão? Será que vale a pena para incorporar no sistema de saúde?”, comenta a Dra. Valdiléa Veloso, diretora do INI/Fiocruz e pesquisadora líder do PrEP Brasil.

O fato é que o estudo, feito com cerca de 600 pessoas foi um sucesso. Após sua conclusão no ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registrou o medicamento, e assim começou o processo para a distribuição da droga, culminando na sua incorporação ao SUS, o Sistema Único de Saúde do país no último mês de dezembro. E mais do que isso, desde o ano passado, a experiência brasileira está sendo compartilhada com mais dois países da América Latina: Peru e México. Segundo Valdiléa Veloso, os países foram escolhidos devido à semelhança no tipo de epidemia, que é concentrada em determinadas populações.

A nova fase do projeto

Dra. Valdiléa Veloso, diretora do INI/Fiocruz (Brasil)

Nesta nova etapa, o projeto receberá o nome de ImPrEP e contará também com financimento da Unitaid e apoio da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec/Fiocruz). No Brasil, serão promovidas capacitações para os funcionários dos centros de saúde, visando a expansão dos locais que distribuem a PrEP. Também se levará em conta a participação comunitária para ajudar na difusão da informação. “Ao todo, serão 35 centros para a distribuição da PrEP, e desses, 15 locais receberão o projeto ImPREP, que mais do que distribuir a droga, também vai monitorar e avaliar melhor os casos e os pacientes. Por exemplo, vamos ter uma tecnologia biomolecular para identificar DSTs e também vamos colher sangue para medir a quantidade de medicamento na pessoa. Essa é a forma mais precisa de identificar a adesão”, explica Valdiléa.

O programa brasileiro busca oferecer a PrEP a 54 mil pessoas nos próximos cinco anos e é possível que medicamentos genéricos estejam disponíveis em breve. Também é esperada uma queda no custo do medicamento, por meio do início da produção nacional.

Já no Peru, o estudo será desenvolvido em 10 centros, localizados em seis cidades, a maioria deles localizada em Lima/Callao – províncias que concentram 71% dos casos de AIDS do país. “Devemos começar os estudos aqui em março deste ano. Estamos terminando de realizar o estudo formativo e qualitativo e iniciando também una pesquisa online para ver alguns aspectos. Na metade de março, vamos inaugurar o primeiro centro”, afirma Carlos Cáceres Palacios, diretor do Centro de Investigação Interdisciplinar em Sexualidade, AIDS e Sociedade/CIISSS (Universidade Peruana Cayetano Heredia/Peru) e pesquisador líder do projeto no país.

O pesquisador afirma ainda que uma das metas no Peru, além da distribuição do medicamento, é difundir e informar a população de que a PrEP não substitui nenhum outro método de prevenção. Ela é complementar. “Outra questão importante é que a PrEP não é para sempre. Deve ser tomada enquanto as pessoas têm um risco alto de contágio. A PrEP não deve ser vista como um tratamento. Sua função preventiva tem que ser entendida com bastante clareza pela população”, disse.

Apesar da perspectiva promissora do ImPrEP, os pesquisadores reconhecem que ainda há um longo caminho a ser percorrido com relação à difusão de informações sobre as propriedades preventivas do medicamento. Também reconhecem que ainda falta capacitação e treinamento de pessoal nos próprios Centros de Saúde.

“A PrEP é um tema muito complexo. Em termos de conhecimento científico, o que se conhece é que teríamos ferramentas suficientes para controlar a epidemia. No entanto, por conta do estigma da discriminação, muita gente não faz os exames de teste. Além disso, às vezes as pessoas chegam a ir ao serviço de saúde, mas não são bem recebidas pelos funcionários. Se você é uma mulher trans e te chamam por um nome masculino, você não se sente confortável em voltar àquele lugar. Se você é travesti e te olham mal, é a mesma coisa”, exemplifica Valdiléa. “A ação vai muito além da distribuição do medicamento. Precisamos superar essas situações cotidianas para conseguir um verdadeiro controle da epidemia”, conclui a pesquisadora.

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