Nova edição dos Diálogos do Sul é realizada, com a Atenção Primária à Saúde e a interculturalidade como eixo central

14/11/2018

No dia 08 de novembro de 2018, o ISAGS promoveu em sua sede, no Rio de Janeiro, mais um evento da série Diálogos do Sul. Desta vez o debate reuniu especialistas para tratar da importância da interculturalidade dentro do contexto de Atenção Primária em Saúde (APS), principalmente após o lançamento da Declaração de Astana em outubro deste ano.

Fruto da Conferência Global sobre Atenção Primária à Saúde, realizada no Cazaquistão, no marco de 40 anos do evento de Alma Ata, a Declaração de Astana foi assinada por 194 países e visa reafirmar o compromisso das nações com a Atenção Primária em Saúde, no sentido de promover sistemas de saúde mais equitativos e fortalecer o acesso da população a serviços essenciais.

Mediado pela Diretora do Instituto, Carina Vance, o diálogo teve início com a apresentação professora Madel Therezinha Luz, aposentada pela UERJ e UFF, que abordou as dimensões dos Sistemas Médicos Complexos e das Práticas Complementares Integrativas em saúde (PICs). A professora abordou os paradigmas existentes entre a prática das “Racionalidades Médicas”, que se entendem pelos sistemas complexos desenvolvidos na biomedicina, como, por exemplo, a Anatomia, a Fisiologia e o Sistema Diagnóstico, e as dimensões das “práticas holísticas”, como a Homeopatia e as medicinas tradicionais.

Madel trouxe ao debate o desafio dos sistemas de saúde em conciliar a lógica da biomedicina, voltada para o diagnóstico e controle das patologias, e as práticas integrativas, que buscam promover a expansão da vitalidade humana através de saberes terapêuticos, que vão além do tratamento emergencial da patologia, ampliando o olhar para diversos atores e relações que influenciam no “permanecer saudável” do paciente.

As Práticas Integrativas em Saúde não são racionalidades médicas. São intervenções terapêuticas ou mesmo diagnósticas. São saberes, práticas terapêuticas de origens diversas e de múltiplas funções. Funções simbólicas, de união cultural da comunidade, funções curativas e funções de sociabilidade”, ressaltou Madel.

O diálogo foi seguido por Juan Bacigalupo, Licenciado em Saúde Coletiva e Mestre em Educação em Saúde. Juan é atualmente pesquisador em educação para saúde intercultural na UNILA – Universidade Federal da Integração Latino-americana e faz parte do Programa de Investigadores Associados do ISAGS.

Em sua apresentação, Juan levantou a questão da saúde intercultural através das noções do pensamento decolonial. Os efeitos da colonialidade podem ser identificados através de quatro aspectos: colonialidade do poder, do saber, do ser e da natureza. O autoritarismo eurocêntrico levou a uma descaracterização de vários elementos das culturas originárias no âmbito da saúde, desde a apropriação e utilização de plantas tradicionais para a fabricação de medicamentos e produtos químicos até a subversão de práticas enraizadas nas sociedades antigas, como o parto vertical.

Juan abordou ainda o desafio do nosso continente em relação ao conceito de saúde universal que traz a Declaração de Astana. “Como atingir a saúde universal num continente como o nosso, tão diverso, com tantas culturas diferentes, que todos tem voz? A saúde intercultural poderia ser uma solução”. Para isso, ele apresentou alguns exemplos de políticas de descolonização implementadas na região, em países como Venezuela, Bolívia e Equador, através de experiências de atenção primária em saúde voltadas para a população indígena e também no sentido inverso, com incorporação de práticas de medicinas ancestrais no sistema de cuidados básicos.

Na sequência, a pesquisadora Andrea Madrid Menéndez, da Universidade de Sheffield, Inglaterra, complementou a discussão sobre a relação entre a atenção primária e a interculturalidade. Andrea destacou a complexidade no entendimento pessoal e coletivo sobre o significado de saúde e sua variação dentro da diversidade de culturas existentes.

Reforçando o tópico trazido no início do evento por Madel, a pesquisadora salientou também a contraposição entre a biomedicina e o tratamento do paciente via práticas tradicionais que se baseiam em perspectivas mais holísticas e integrais, que visam o entendimento do indivíduo para além da patologia que este apresenta, mas levando também em consideração as relações que o constituem e o afetam.

Ela frisa a importância da geração de conhecimento para possibilitar a eliminação de lacunas culturais e apreensão do entendimento sobre as distintas visões, criando bases para a incorporação de práticas ajustadas a estas diferentes perspectivas. Andrea acrescentou também a problemática sobre a generalização das diversidades culturais, citando como exemplo o uso de termos como “indígena”, que agrupa grupos diversos desvalorizando a multiplicidade de conhecimentos inerentes a esses povos, em menção a visão de Linda Tuhiwai Smith sobre descolonização.

Para finalizar a primeira parte, o evento contou com a apresentação da Dra. Vivian Camacho. Cirurgiã especialista em Interculturalidade e Saúde e coordenadora da Salud de los Pueblos Bolívia. Vivian é também membro da Comissão de Alto Nível de 40 anos da Alma Ata para a OPAS.

Sua fala trouxe um panorama da situação atual da medicina tradicional ancestral e integrativa na América Latina. Destacou a importância da superação dos modelos de dominação mercantilistas que há séculos transformaram a saúde em um sistema que visa o lucro, não dialogando com os saberes tradicionais, eliminando dessa maneira o fundamento principal que é o de preservar a vida.

A saúde é a construção social de uma vida digna”, frisou. O resgate dos valores primórdios, da harmonia com a natureza, o diálogo de saberes intercientíficos deve ser entendido para que se alcance uma cobertura universal que atenda diferentes culturas e se valorize essa construção. A doutora comentou ainda o tópico da Declaração de Astana em que se menciona a utilização dos conhecimentos e medicamentos tradicionais na Atenção Primária. Para isso, reforça sua visão em que é preciso entender a medicina tradicional como um sistema de vida alternativo e produzir conhecimento digno a partir dessa memória.

Sobre o evento

O Diálogos do Sul é um evento periódico do ISAGS que promove a discussão de tópicos relevantes para a saúde no contexto sul-americano. Os eventos são abertos ao público e ocorrem na sede do ISAGS no Rio de Janeiro e são transmitidos em nossas redes sociais.

Para assistir ao evento na integra, acesse no seguinte link.

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